A criança de 2 a 4 anos

agosto 22, 2021

Por volta dos dois anos de idade a criança experimenta e tem consciência das descobertas que faz e ganha uma enorme capacidade de interação. É também por volta dessa idade que a criança apresenta como característica do seu desenvolvimento o que é chamado de “egocentrismo”, isso significa que a criança se amplia socialmente, porém apenas consegue perceber as coisas ao seu redor a partir do seu próprio ponto de vista. Nessa fase a criança começa a desenvolver a noção do “meu”, mas ainda não consegue assimilar a noção do “seu”.

Birras e situações de inflexibilidade cognitiva (só quer comer com um prato específico. Ao ouvir a palavra “não”, começa a bater os pés, se joga no chão, arremessa brinquedos e chora desesperadamente. Ou ainda, reluta em entrar no banho e, quando entra, reluta para sair, dentre tantas outras coisas.) são normais e esperadas, no desenvolvimento infantil, de crianças que se aproximam dos dois anos de idade e pode perdurar até aproximadamente 4 anos, quando as crianças aumentam seu repertório para se expressar e entender o mundo.

Na fase dos dois anos a criança se descobre como um indivíduo, não sendo extensão nos pais, com interesses e vontades próprias, ampliando suas interações com o mundo e os outros. A habilidade de linguagem e falar ainda está em desenvolvimento, o que dificulta a criança expressar o que pensa e sente. E somado a isso, as áreas do cérebro responsável pelo autocontrole e a autorregulação dos sentimentos e comportamentos ainda não se desenvolveram. Por isso, lidar com a frustração é algo que a criança ainda é incapaz de realizar por conta própria, sendo necessário a mediação do adulto.

A maneira como os pais lidarão com essa criança pode predizer e moldar a forma como ela lidará com seus sentimentos na vida adulta.

Nesse sentido, vale considerar que a criança não está sendo malcriada ou desafiadora da autoridade dos pais. O que ocorre é que as crianças buscam por consistência nos comportamentos das situações e dos outros, isto é, elas agem de determinada forma para verificar se a resposta que o ambiente irá lhe fornecer sempre será a mesma. Como exemplo: quando a criança sobe nos móveis, e mesmo os pais falando várias vezes para não fazer isso, ela repete a ação de subir. O que a criança está averiguando é se a resposta dos pais continuará sendo o “não” para a situação.

Nesse sentido, se os pais se deixam levar pela raiva e realizam punições, as situações tendem a sair do controle. Contudo, se agirem com calma, empatia, firmeza e oferecerem estratégias para a criança, ela aprenderá ferramentas para lidar com suas emoções. Isso será um ganho para toda a vida dela.

Partindo desse entendimento, vale destacar dicas que ajudarão durante o dia a dia, porém terão de ser repetidas algumas vezes até que sejam internalizadas por crianças tão pequenas.

É importante se esforçar para conseguir gerenciar suas próprias reações em benefício próprio, da criança e da família.

Dicas para lidar com os comportamentos das crianças nessa fase:

1. Quando a criança bater.

Gritar para a criança: “pare de bater, você está de castigo!”, tende a fazer com que a criança fique mais nervosa e não saberá o que fazer com seus sentimentos.

Então, a sugestão é explicar a criança que o que ela está fazendo não é certo e machuca. É primordial ressaltar e validar o que ela está sentido e dar alternativas para que ela lide com a situação. Como exemplo: “Sei que você está chateada, mas não comemos doce antes do jantar. Quando estiver se sentindo brava ou triste, bata nesse tambor/bater palmas/rugir como um leão ou fale comigo, ao invés de bater/morder a mamãe”.

Ao repetir essa atitude com frequência a tendência é que a criança comece a entender os próprios sentimentos e os recursos para administrá-los.

Outra dica é falar em tom de curiosidade: “ Você viu que a sua mãozinha bateu no amigo? Você é que é o chefe dela, então deve cuidar dela para que ela faça carinho nas outras pessoas”. É importante fazer afirmações positivas sobre os comportamentos que esperamos e são adequados para serem realizados, como o carinho citado.

2. Durante a birra.

As crises de birra são um pedido de socorro da criança, é uma forma dela “dizer” que não sabe lidar sozinha com determinada situação. Desse modo, é primordial manter a calma, o tom de voz acolhedor e firme para não elevar a tensão. Não somos capazes de controlar como a criança irá reagir. Porém, somos totalmente capazes de controlar nossa própria reação.

Nesse momento, valide as emoções da criança, ajude-a a expressar em palavras o que sente e ofereça colo e abraço, mesmo que ela recuse, diga que você está com ela para ajuda-la e dar um abraço quando ela quiser.
O que também ajuda bastante nesse momento é desfocar a criança do motivo da birra. Vale mudar de ambiente, olhar para alguma coisa diferente, dar uma volta, pegar algo para te ajudar e etc.

Após passar a crise de choro é eficaz ter uma conversa construtiva com a criança dando a ela informação e orientação: “Você ficou muito brava quando eu tirei o seu brinquedo e você chorou muito. Vamos pensar em outras formas de agir?”.

3. Imponha limites.

Manter a calma, ser empático e acolhedor não significa ceder aos desejos da criança, o que passa a ela uma mensagem de falta de consistência e coerência, fazendo com que ela internalize que se fizer birra, consegue o que quer. Por isso, a firmeza é importante: saber dizer ‘não’ quando necessário e acolher a frustração decorrente desse não.

A criança testa seu poder e suas escolhas. Se os pais não mantém o limite que definiram, o comportamento inadequado continuará. Logo, é preciso impor limites no tempo diante da TV ou tablets, ou em crianças que batem, porque certas coisas não são negociáveis. Se ela não quer botar o cinto de segurança, coloque-o, seja impassível, firme e siga adiante. Aos poucos, a criança vai perceber que, mesmo que não colabore, o cinto será colocado de qualquer maneira.

4. Dê oportunidade para a criança escolher.

Para evitar longas batalhas durante as refeições, na hora de se vestir, na hora de sair ofereça escolhas (aceitáveis) à criança, que está morrendo de vontade de exercer sua recém-descoberta autonomia.

Para tanto, pode-se dar duas escolhas à criança e estabelecer limites. Por exemplo, no caso de se vestir, pode-se falar: “Você quer vestir a camiseta verde ou azul?”. Assim a criança acredita que está tomando uma decisão, mas que na verdade já foi previamente realizada pelos pais, por meio de duas opções.

No caso dos brinquedos espalhados pelo chão da casa, pode-se falar: “Você tem duas ótimas escolhas: guardar ou não os brinquedos. Se você guardar, ótimo. Se não guardar, a mamãe ou o papai terá que gastar tempo fazendo isso, então teremos um livro a menos para ler na hora de dormir”.

Assim, a ideia é dar consequências às escolhas das crianças, mas apropriadas à situação.

5. Evite utilizar a palavra “não” de maneira corriqueira.

A ideia é dizer a palavra “não” de maneira intencional para proteger a criança de algo realmente negativo, uma vez que o cérebro, nessa idade, apresenta dificuldade de fixar a palavra “não”. Como exemplo: “Se você não quer que a criança mexa na tomada, diga à ela pegue o brinquedo, o lugar da mãozinha é no brinquedo.”

Se a criança está mordendo na escola, não diga “o papai não quer que você morda na escola, não pode morder”. Pois a criança fixará somente o morder. Logo, sugere falar: “ Seja amigável, carinho com os amigos!”

6. Deixe as atividades cotidianas mais lúdicas.

Transformar atividades cotidianas em brincadeiras ajuda a aliviar tensão nas tarefas chatas.

Deste modo, para vestir a criança, escovar os dentes e etc. e evitar desgaste, sugere-se fazer voz de robô, voz fina, voz grave, pois a criança vai levar essa fase com mais leveza e facilidade.

E evite entrar em todas as batalhas com a criança. Avalie e se a situação não interferir no funcionamento da família e não machucar ninguém se recomenda deixar para lá, como por exemplo, se o seu filho decide sair de casa com uma camiseta que não combina com a calça. Está tudo bem!

7. Planeje para prevenir birra.

Busque identificar padrões de comportamento para prevenir as crises. Avalie qual o horário a criança está mais disposta e descansada para realizar atividades como banho ou dar a refeição.

E, caso tenha percebido o que causou a birra do dia anterior, tente impedi-la hoje com conversas: “Lembra que ontem foi muito difícil a hora do banho? Vamos tentar hoje sem chorar? A mamãe/o papai vai te ajudar.”

8. Os adultos são modelos de referência para a criança.

A forma como reagimos diante dos comportamentos inadequados da criança sinalizam para ela a forma que ela deve se comportar em outros momentos de sua vida.

Agir com agressão física ou verbal, ensina a criança de dois anos a agir da mesma maneira. Logo, ela vai usar a mesma estratégia quando estiver em outro contexto (escolar ou familiar).

Desse modo, a melhor solução é uma conversa firme, em que os pais deem uma razão simples e fundamentada para o “não”. Como exemplo: “Agora é hora de dormir, e não de tablet”. Use um vocabulário objetivo e adequado com a criança.

Nesse mesmo sentido, as chantagens, como: “se você parar eu te dou um presente/doce” , têm o mesmo efeito adverso, pois a criança vai fazer pelo doce, mas não vai aprender o valor do comportamento.

9. Se permita perder o controle, de vez em quando.

Às vezes os próprios pais se deixam levar pela situação e, mesmo sem querer, se veem gritando ou perdendo a paciência com a criança.

Quando isso ocorrer aproveite o momento para ensinar às crianças a assumir responsabilidade por suas ações, afirmando que a mamãe e/o papai perderam o controle, mas agora respiraram fundo. Se desculpe por ter gritado ou perdido o controle e retome de maneira adequada o que deve ser realizado pela criança.

Se a situação permitir, pode-se “fazer um intervalo”: “Dizer ‘a mamãe vai tirar um momento para pensar’ é uma saída possível. Assim, terá um momento para respirar e elaborar quais escolhas vai oferecer a criança.

E os pais podem se beneficiar de ter outro adulto por perto a quem possam recorrer quando estiverem prestes a perder a paciência. Peça ajuda para que o outro adulto assuma as rédeas da situação.

Autora: Ana Claudia Blanchet – Psicóloga, Psicopedagoga e Pedagoga. Mestre em Educação. Atua na Escola de Educação Infantil Espaço da Criança.

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