O processo de desfralde

agosto 22, 2021

Partindo dos atuais conhecimentos e entendimentos a respeito do desenvolvimento infantil esse texto tem como objetivo abordar de maneira prática como ocorre a maturação da criança para o processo de desfralde.

O ponto de partida para melhor compreensão desse processo se dá na medida em que se conscientiza do fato de que as crianças são os maiores agentes de construção de seus conhecimentos que se ampliam a partir de suas explorações e vivências. Ao passo em que se reconhece que a criança se desenvolve apoiada no seu interesse próprio e nas relações com os outros, ampliando suas vontades e evoluindo para a intenção de se tornar cada vez cultural e socialmente desenvolvida, validando-se o papel dela como protagonista de sua infância.

A criança como protagonista

Antes de se abordar o processo de desfralde, propriamente dito, vale ressaltar a importância de o cuidador estimular a criança a conhecer sobre o seu próprio corpo: reconhecer as partes do corpo, as sensações advindas delas e o seu controle sobre essas.

Nesse sentido, ao falar sobre o desfralde mostra-se relevante que a criança já consiga saber reconhecer a vontade de ir ao banheiro e sinalizá-la, saber segurar e soltar por si própria, saber quando chega a hora de urinar ou defecar torna-se muito importante nessa fase. Como esse processo ocorrerá pode influenciar a relação que este indivíduo terá com o seu corpo na fase adulta.

É nesse momento que entra em jogo o autocontrole da criança sobre a sua vontade de ir ao banheiro, o que é diferente de ser forçada a usar o banheiro quando o adulto acha conveniente. O adulto nesse processo é o mediador que auxiliará, apoiará e preparará a criança a se conscientizar de suas vontades e sensações e, não quem irá determiná-las ou impô-las.

Desse modo, visa-se que aos poucos a criança consiga autorregular-se, ou seja, desenvolver sua capacidade de poder monitorar e modular suas vontades, sem intervenção externa (do outro) e, por consequência, ir aumentando sua própria autonomia.

O que é o desfralde?

Teoricamente, o desfralde corresponde ao momento em que a criança está pronta para abandonar as fraldas e controlar adequadamente os esfíncteres (músculos) que impedem a eliminação de urina e fezes de forma involuntária.

A Neuropsicologia, ciência que estuda as relações entre o cérebro e as manifestações do comportamento humano, nos auxilia trazendo a noção de que as crianças amadurecem primeiramente o córtex motor, a área do cérebro que é responsável pelo processo de iniciar o movimento. E somente mais tarde, o córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável por controlar e parar o movimento se desenvolve.

Portanto, como o ato de urinar e defecar está em grande parte sob controle do sistema nervoso central, crianças pequena que ainda tenham o cérebro imaturo serão incapazes de controlar a micção e a evacuação. E, tão logo o sistema nervoso consiga controlar esses fenômenos, esta criança estará pronta para o desfralde e esse ocorrerá de forma natural e, geralmente, rápida.

Nessa direção, após determinada idade, alguns músculos de nosso corpo são capazes de manter a urina dentro da bexiga e as fezes dentro das porções finais do intestino até que comandos provenientes do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) provoquem o relaxamento destes músculos e a expulsão da urina e fezes.

Crianças a partir de dois anos de idade começam a reconhecer melhor o seu próprio corpo e ter algumas noções a respeito de independência. É justamente por esse motivo que após os 2 anos e meio de idade a maioria das crianças estará pronta para deixar definitivamente as fraldas.

Etapas do desfralde

A fase do desfralde pode-se organizar em 4 etapas:

  1. Indiferente: Ocorre quando a criança ainda é um bebê, por ela não ter percepção sobre isso, acaba fazendo suas necessidades todas na fralda;
  2. Passado: Quando a criança faz as necessidades, e só depois de feito ela percebe e sinaliza verbalmente ao adulto;
  3. Presente: Quando a criança percebe enquanto já está fazendo;
  4. Futuro sem controle: Quando a criança percebe que tem vontade e que ainda vai fazer suas necessidades, mas não consegue controlar e faz na fralda;
  5. Futuro com controle: Quando a criança percebe que tem vontade e consegue controlar-se até chegar ao banheiro para fazer suas necessidades.

Entre a 4ª e 5ª etapa a criança parece ora estar pronta para o desfralde, ora não. É uma fase transitória onde a criança ainda precisa de fralda. É durante a 5ª etapa que o desfralde tende a ocorrer com maior rapidez e sucesso.

Diferenças no desfralde

Os desfraldes de xixi e cocô podem acontecer em tempos diferentes, assim como o desfralde diurno e noturno, uma vez que se trata de processos diferentes.

O músculo responsável pelo controle do xixi é o esfíncter uretral. Já o controle das fezes é feito pelo esfíncter anal. No que se refere ao processo diurno, esse pode ser mais rápido que o noturno, já que é necessário realizar o controle durante sono e durante vigília.

Logo, a criança pode facilmente desfraldar do xixi de dia e de noite precisar da fralda, bem como pode conseguir controlar o xixi, mas ainda precisar da fralda para as fezes por mais algum tempo.

Outra questão normal a esta etapa é o fato de algumas crianças apresentarem medo do cocô ou do vaso sanitário. O xixi tende a ficar incolor e inodoro ao se misturar com a água do vaso sanitário, enquanto o cocô, além do possuir odor, pode causar certo incômodo na hora da evacuação, causando estranheza às crianças. Assim, como o vaso sanitário, por ser alto para a criança, com um assento grande e água dentro, pode despertar certo receio.

O cocô por ser uma produção do corpo, que a criança consegue visualizar, pode criar certo “apego”, carinho por sua produção, o que pode gerar receio e negativa para se despedir.

Por isso, estimular o hábito de dar tchau pro cocô no vaso promove que a criança se desapegue dessa produção de seu corpo, e também controle o defecar.

As sensações anais podem despertar curiosidades, medos e apegos, e, portanto cabe ao cuidador tirar as curiosidades da criança, sem estimular o nojo, mas ensinando sobre a higiene básica necessária à sua saúde.

Comportamentos indicativos de maturação para o desfralde:

Os comportamentos emitidos pela criança no momento em que está urinando ou evacuando na fralda são indicativos de prontidão para o desfralde:

  • Fisicamente, a criança pode demonstrar que está evacuando na fralda, por exemplo, ficando parada ou mais quieta em um canto da sala, flexionando as perninhas, agachando no chão ou batendo as mãos na fralda;
  • Outro aspecto importante a se analisar é o intervalo entre as micções. Se a crianças conseguem urinar volumes maiores com intervalos maiores, conseguindo permanecer de 3 a 4 horas com a fralda seca;
  • Se a criança é capaz mostrar sinais de desconforto ou irritação pela fralda estar suja, isso é um forte indício de que o momento do desfralde chegou;
  • Se a criança não apresente nenhum nível de resistência para se sentar no vaso sanitário e que não tenha medo de estar dentro do banheiro. Algumas crianças, por não compreenderem exatamente as funções do banheiro, podem achar esse local um ambiente um tanto assustador e desconfortável;
  • Se a criança compreende que na casa há um local (banheiro) que é destinado exclusivamente para os momentos de higiene pessoal, tais como local correto para fazer xixi e cocô quando se tem vontade.

Dicas básicas para ajudar no processo de desfralde:

Dica 1: NÃO TENTE desfraldar a criança antes que ele tenha maturidade para isso. Lembre-se: pouquíssimas crianças ficarão longe das fraldas antes dos 2 anos de vida. Tentativas muito precoces de desfralde provavelmente irão falhar e podem dificultar o processo no futuro. Portanto, tenha paciência e aguarde o momento correto.

Dica 2: As crianças aprendem por imitação, permita que que ela observe quando algum irmão, pai ou mãe estiver utilizando o banheiro. Isso fará com que esse momento se torne algo muito mais natural para ele. Essas técnicas de modelagem (criar modelos a serem seguidos pela criança) ajudam bastante e podem encurtar o processo de desfralde.

Dica 3: Ao realizar a transição da fralda para o banheiro, se optar por utilizar o penico estimule também o vaso sanitário com assento redutor de tamanho. Pois, se a criança permanecer por muito tempo utilizando o penico, acabamos criando um novo problema, pois, como não temos esse objeto fora de casa, você terá que continuar utilizando fralda quando sair com a criança. E isso dificulta o desfralde.

Dica 4: Além do assento de vaso redutor de tamanho, é FUNDAMENTAL que haja um apoio para os pezinhos, para que a criança se sinta confortável nesse momento. Há assentos que têm, inclusive, apoio lateral para apoiar e segurar com as mãozinhas.

Dica 5: se possível, tente o desfralde no verão ou na primavera, pois as chances de sucesso serão maiores. Nos meses de temperatura mais baixa, as pessoas normalmente perdem menos água por transpiração e, por esse motivo, urinam muito mais. Outra boa dica é iniciar o desfralde nos meses de férias da criança e do cuidador, quando as crianças podem estar mais sob nossa supervisão direta.

Dica 6: retire primeiro a fralda do dia e, quando esse comportamento estiver bem estabelecido, retire a fralda da noite. Retirar a fralda do dia e da noite simultaneamente pode acelerar o processo e pode trazer incômodos e frustrações desnecessárias. Quando a criança estiver conseguindo manter, durante pelo menos 3 dias, a fralda da noite totalmente seca, é o momento para você iniciar o desfralde noturno.

Dica 7: para as crianças que têm medo ou receio de entrar no banheiro, deixe que eles fiquem do lado de fora somente observando o que acontece lá dentro, enquanto o cuidador toma banho, escova os dentes ou usa o sanitário. Depois, através de aproximações progressivas, tente fazer com que a criança vá aos poucos entrando e permanecendo cada vez por mais tempo dentro do banheiro.

Dica 8: mesmo que a criança seja um menino, o treinamento para fazer xixi no vaso sanitário deve ser realizado com ele SENTADO. Primeiro porque isso facilita a aquisição dessa habilidade e, segundo, porque frequentemente teremos xixi e cocô ao mesmo tempo.

Dica 9: SEMPRE que a criança acertar o xixi ou o cocô no vaso sanitário, reforçar seu comportamento imediatamente com um elogio, um livrinho ou um brinquedo de sua preferência.

Dica 10: Em casos mais complexos, nos quais a criança está realmente demorando para compreender o desfralde, uma técnica bastante efetiva é levá-la a cada 60 minutos até o banheiro e mantê-la sentada no vaso sanitário por 3 a 5 minutos. O cuidador deve tentar transformar esse momento em algo prazeroso, para que a criança não tente se esquivar do banheiro. Muitas vezes, imediatamente quando o bebê se levantar do vaso, ele irá urinar ou evacuar. É claro que isso é frustrante para os pais… Mas nesse exato momento NÃO PODE repreendê-lo, não pode mostrar raiva e nem nojo, pois isso atrapalha e retarda o processo do desfralde. A forma correta de agir nesse momento é simplesmente secar e limpar a criança com o mínimo de interação possível. Nesse momento não deve falar com ela e nem mostrar desaprovação através de gestos faciais.

Dica 11: Quando perceber que a criança está realmente pronta para o desfralde, uma boa ideia é levá-la para comprar cuecas ou calcinhas divertidas, coloridas ou com personagens infantis estampados. Isso pode ser muito estimulante para que ela deixe definitivamente a fralda de lado.

Dica 12: lembre-se de que questões emocionais podem dificultar a retirada da fralda. Então, se o ambiente emocional em casa não estiver bom no momento, se a criança estiver passando por qualquer dificuldade que altere negativamente suas emoções, ou no momento da chegada de um irmão, início da escola e etc, orienta-se agir com prudência e aguardar algum tempo para iniciar o desfralde. Se tudo estiver tranquilo dentro de casa, as chances de sucesso são muito maiores.

Dica 13: Persista no auxílio durante o período de desfralde. Se a criança já consegue ficar sem fralda em um determinado ambiente (exemplo escola), confie que ela já apresenta a mesma capacidade em casa. Claro, que isso não significa que não haverão momentos de escapes na roupa, uma vez que isso faz parte do processo.

Autora:  Ana Claudia Blanchet – Psicóloga, Psicopedagoga e Pedagoga. Mestre em Educação. Atua na Escola de Educação Infantil Espaço da Criança

Deixe um comentário
A criança de 2 a 4 anos

Deixe o seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.