Adaptação Escolar

LOGO

Adaptação Escolar

Anelise Bertuzzi Mota- Psicóloga Educacional*

 

 

Mais um ano se inicia e com ele a possibilidade do novo, dos planos e das realizações se concretizarem. Uma delas é o início da vida escolar de vossos filhos ou o retorno a ela após um período de grande convivência de férias.

É normal esse ser um período de adaptação familiar e educacional, ou seja, da criança com a escola, da família com a criança diante deste processo desconhecido, e ainda, da escola com a criança e seus familiares.

Adaptação versus separação:

Inevitavelmente, adaptação rima com separação. De modo geral essa é uma vivência bastante mobilizadora para todos. Não é a toa que até hoje boa parte de educadores e familiares optam “pelo ir embora sem a criança ver”, ou “sair de fininho”. Essa atitude deixa clara a associação de separação com coisa ruim, que trás sofrimento; que a qualquer momento essa pessoa que tanto representa segurança pode sumir dos seu olhar.  Fala também de como os vínculos de confiança com a criança começam a ser construídos em bases distorcidas, que envolvem o mentir e o enganar.

Imaginar que o sucesso de um processo de adaptação se resume a ausência de choro, é banalizar uma situação que não termina em si mesma. Os sintomas que as crianças fazem como doenças, regressões, alterações comportamentais, etc, estão aí para comprovar que elas não falam que as coisas não vão bem somente chorando.

Principalmente nessa primeira fase de vida as emoções dos pais ainda refletem diretamente nas reações da criança. Ela ainda é muito dependente de seus olhares.

Portanto, repercussões efetivamente positivas de nosso trabalho em relação a criança, só teremos se os pais sentirem-se cúmplices da escola nesse processo. E isso dependerá de como a família será acolhida pela instituição e da mesma forma, de como a Instituição será percebida pelos pais.

De forma até inconsciente (não consciente e não falada) a criança percebe e sente a segurança dos pais com a escola. Para isso retire todas as dúvidas com relação a esse período e ainda com relação a rotina escolar escolhida. Não é aconselhável ficar inseguro com a escola ou desconfiado da mesma, até porque diretamente a criança vai sentir tal insegurança e isso dificultará o período de adaptação da mesma.

Os pais podem e devem ajudar seus filhos neste momento tão importante. É essencial que os pais deixem claro que não o estão abandonando e voltarão para levá-los para casa, fazendo o possível para buscá-los na hora exata da saída, sendo honestos com a criança, despedindo-se dela quando sair.

Seja persistente!

Não desista se realmente acredita que fez a melhor escolha para seu filho. Ficar um dia em casa, afinal “coitadinho ainda é tão pequeno”, mostra o quanto é um castigo para a criança ir a escola, e não passa de forma prazerosa sua nova realidade. Esse um dia pode colocar tudo a perder o trabalho conquistado na semana. A influência dos avós, familiares e babás podem também interferir neste processo, quando passam para a criança que a escola não é algo bom para ela.

Quanto tempo?

A adaptação da criança na escola pode demorar de um dia, uma semana, duas até 1 ou 2  meses dependendo da idade e do tipo de relação que tem com as pessoas mais queridas. A possibilidade da separação materna dependerá muito da atitude emocional da mãe. Não é possível compreender os sentimentos de uma criança sem pensar nos sentimentos que envolvem os pais. O sentimento de uma mãe, que leva seu filho na escola no primeiro dia de aula, é muito similar àquele vivido pela criança. Pode acontecer também da criança ficar bem nos primeiros dois dias e depois iniciar o choro, isso acontece porque termina a novidade e começa a iniciar uma rotina e então a criança percebe que será todos os dias esse novo espaço. Nestes casos aconselha-se os pais a persistirem nos horários e vindas a escola sem interromper o processo.

 

De que forma:

De forma gradativa a criança vai adaptando-se mais facilmente, ou seja no primeiro dia o tempo que ela conseguir ficar determinará o seu limite de separação. Após esse dia aumentar gradativamente 30 minutos por dia é o ideal para a criança sentir-se mais segura e quando terminar a semana ela já poderá estar frequentando seu período de 4hs. Se for integral também é importante que aconteça de forma gradativa.

É importante que a mãe, o pai ou alguém com quem a criança tem um vínculo afetivo forte a acompanhe nestes primeiros dias. Essa pessoa deve ficar em algum espaço que a escola tenha reservado para isso enquanto que a criança reúne-se com a professora e os novos amiguinhos. Sempre que a ansiedade, insegurança ou choro resolverem aparecer, a criança vai ao aconchego desta pessoa para que saiba que tem um respaldo e que não foi abandonada. É imprescindível que os pais permitam essa aproximação, pois ela precisa formar vínculos com a professora e os novos amigos. Se os pais ficarem dentro da sala de aula é claro que a criança vai ficar o tempo todo debaixo da proteção e não conseguirá estabelecer um relacionamento e ainda dificulta a adaptação das demais crianças da sala que associam a presença daquela mãe com sua mãe.

Aos poucos ela vai percebendo como é gostosa essa nova vida e entendendo o que significa a escola, aonde ela vai se socializar, desenvolver a coordenação, aprender a lidar com tempo, espaço, lateralidade, percepção, desenvolver a linguagem, pensamento lógico, aprender músicas, fazer artes plásticas, além de outras artes, lidar com a diversidade e elevar sua autoestima conquistar autonomias, além de muitos outros aspectos. É claro que ela não quer nem saber que está desenvolvendo tudo isso, pra ela é pura brincadeira e é isso o mais divertido, desenvolver todos esses aspectos de forma lúdica e saudável.

E o que fazer com o sentimento de culpa?

Um aspecto difícil é muitas vezes o sentimento de culpa que passa pela cabeça dos pais de não poderem estar o tempo todo com seu filho, principalmente para as crianças que ficam período integral. Não há porque se sentirem assim, pois as crianças crescem, amadurecem e precisam de novas experiências com outros da mesma idade. Não é necessário se preocuparem, pois essa experiência, por mais longa e cheia de lágrimas dos dois lados, que possa ser, não traumatiza. Todos superam e certamente no futuro nem se lembrem desses primeiros dias na escola.

O que registra para a criança?

A educação infantil ou o inicio do ensino fundamental é uma oportunidade que a criança tem de se desenvolver intelectual e emocionalmente, enfrentando as dificuldades sozinha, começando a lidar com outros adultos que não seus pais, nem seus familiares. Por isso, ela deve sentir que o ambiente lhe oferece carinho, afeto e segurança, semelhante ao que senteem casa. Sea mãe constatar realmente um olhar triste na criança, que abarque todo o seu estado geral, deve falar novamente com a professora. Ela é uma pessoa fundamental na vida da criança neste momento e junto à família, deverá estimular a criança se estiver com medo, e mostrar-se o mais confiante possível. Evitar chacotas em torno dos temores infantis é algo que deve ser cumprido à risca. Tais temores desaparecerão por si só, quando a criança tiver experiência bastante para enfrentar as vicissitudes da vida.

Essa fase pode parecer dolorosa, mas aos poucos, pais e criança começam a confiar na escolha que fizeram e a lidar com mais tranquilidade e prazer com essa etapa que é fundamental na construção da personalidade da criança.

Adaptação para cada fase de desenvolvimento infantil:

 

Do 1ano até quase três anos de idade é a idade mais trabalhosa, pois a criança já estranha e não consegue elaborar um raciocínio para compreender o que significa a escola, o que está fazendo lá e principalmente que os pais continuam a existir mesmo quando não estão diante de sua vista. Por isso é preciso ter muita tranquilidade, paciência e principalmente confiança na sua escolha. Aqui a colaboração e participação dos pais será inevitável para ter sucesso.

A partir dos quatro anos a adaptação costuma ser bem mais tranquila, pois a criança já verbaliza bem e compreende o que está acontecendo. Neste caso um ou dois dias já costumam ser suficientes para que a criança se integre.

Dicas para os Pais:

- Conversar com a criança sobre a vinda à escola, tendo o cuidado de evitar explicações longas e que possam gerar expectativas muito altas ou receios na criança;

- Que a criança vivencie um processo gradativo de adaptação à escola;

- Que a família permita à criança trazer “objetos transicionais” para a escola, pois representam um elo com a casa e com quem exerce a função de mãe para o educando;

- No momento da despedida, é importante que o responsável do educando não saia escondido, informando que irá embora, mas que voltará para buscá-lo.

- Nesta entrega a professora é importante que a criança venha caminhando de mão dada com a mãe e esta entregue ao professor, dificulta quando esta no colo da mãe. Caso tenha que tirar do colo é importante que seja a mãe que faça a  entrega e não a professora retira do colo da mãe, pois isso registra na criança que a mesma foi “arrancada” dos braços e pode entender que a mãe não queria.

- Imprescindível será voltar no horário combinado, por mais que a criança não tenha noção de horário, ela acompanha quando seus colegas estão indo embora e vai aumentando seu sentimento de abandono.

- Por fim, seja persistente e não desista no meio do processo, pois isso implicará que diante das dificuldades a criança pode desistir. Além, é claro, de ter de começar tudo novamente.

Boa adaptação!

 

* Anelise Bertuzzi Mota – Psicóloga Clinica e Educacional, Mestre em Educação, atua na Escola de Educação Infantil Espaço da Criança desde 2002 e na Escola Bilíngue Little Kids desde 2006.

 

10 de fevereiro de 2015 | Categoria: Circulares | Comments: none

 

Deixe uma Resposta

Você deve estar logado para postar um comentário.